Os incêndios que lavram no centro e no leste de Espanha tornaram-se os piores da história do país. Mais de 115 mil pessoas foram retiradas de casa ou estão confinadas, e o fogo já provocou uma vítima mortal. Uma vaga de calor persistente, meses de seca e ventos fortes transformaram julho num verdadeiro barril de pólvora.

O maior fogo de sempre

O incêndio que une as províncias de Ávila, Madrid e Toledo já consumiu dezenas de milhares de hectares e é considerado o maior alguma vez registado em Espanha. As chamas, alimentadas por rajadas violentas, obrigaram à evacuação e ao confinamento de perto de 91 mil pessoas em mais de uma dezena de municípios a oeste da capital. Só nesta frente arderam cerca de 50 mil hectares de floresta e matagal, poucas semanas depois de outro grande fogo ter devastado a serra de Guadalajara.

O primeiro-ministro, Pedro Sánchez, deslocou-se ao posto de comando avançado de Navaluenga, e o Governo declarou o estado de emergência nacional. A única vítima mortal até ao momento morreu num incêndio em Manises, nos arredores de Valência.

A frente de Castellón

A leste, a província de Castellón enfrenta um segundo grande foco, na zona da Vall d'Uixó, deflagrado a 25 de julho. Ao fim de vários dias, o perímetro ronda os 70 quilómetros e as chamas percorreram cerca de 8500 hectares. Aqui, as autoridades suspeitam de fogo posto, embora a investigação continue em curso. O fumo denso levou ao confinamento de povoações inteiras, entre as quais Onda e Betxí.

Um verão que se repete

Nada disto é obra do acaso. A combinação de uma seca prolongada, de sucessivas vagas de calor e de ventos fortes criou as condições perfeitas para os chamados megafogos. Desde o início do ano, Espanha registou dezenas de grandes incêndios que arderam mais de 170 mil hectares — seis vezes mais do que no mesmo período do ano anterior. Somados desalojados e confinados, só nestes dias mais de 115 mil espanhóis viram a vida suspensa pelas chamas.

A resposta foi europeia. Através do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia, chegaram meios da Grécia, de Itália e da Turquia, enquanto Portugal enviou mais de uma centena de bombeiros e dezenas de veículos. O sistema de satélites Copernicus forneceu a cartografia de emergência que orienta os operacionais no terreno.

Estes fogos inserem-se num padrão que atravessa todo o sul da Europa, com Espanha e França a somarem, juntas, mais de 250 mil evacuados no mesmo período. Como já sucedera com a vaga de calor que fez milhares de mortos na Alemanha, tudo aponta para a mesma causa de fundo: um clima cada vez mais quente, em que a época de incêndios chega mais cedo, se prolonga mais e parece disposta a bater, todos os verões, o recorde do anterior.