É já a partir de quinta-feira, 9 de julho, que Portugal continental volta a respirar. Depois de uma semana em que o interior alentejano roçou os 41 °C e Lisboa somou uma anomalia de quinze graus acima do normal, o ar fresco do Atlântico Norte entra pela costa e faz cair a temperatura até treze graus em poucos dias. Só que o alívio não chega a todo o lado ao mesmo tempo — e o calor, esse, limita-se a mudar de morada: a próxima vítima é a França.

Primeiro, os números

Comecemos pelos dados, não pelas impressões. Na terça-feira, 8 de julho, o IPMA mantinha aviso laranja por tempo quente em Évora, Beja, Faro, Portalegre, Bragança e Guarda, com máximas oficiais de 41 °C em Évora, 39 °C em Beja e 34 °C em Lisboa e Faro. Nos pontos de reanálise da Open-Meteo, a máxima diária em Évora chegou aos 40,8 °C no dia 2 e voltou a rondar os 40,6 °C no dia 5; Lisboa, mais amansada pela brisa, ficou-se pelos 38,7 °C logo no arranque do mês.

O que transforma estes valores em episódio extremo não é o termómetro em bruto, mas o desvio face ao que seria normal. Calculada a partir da reanálise ERA5 para o período de referência 1991-2020, a normal de início de julho ronda os 24 °C em Lisboa e os 29-30 °C em Évora. A anomalia atingiu assim, no dia 2, uns notáveis +15 °C em Lisboa e +12 °C em Évora — quinze graus acima da média num único dia, o tipo de desvio que faz soar todos os alarmes.

Curva da máxima diária prevista em Évora sobre a envolvente climatológica 1991-2020

Convém, ainda assim, ser rigoroso quanto à palavra «recorde». Durante quatro dias seguidos, a máxima em Évora superou o máximo histórico observado nessas datas — um recorde para o dia, portanto. Não se trata, contudo, de um recorde absoluto de julho: a série mostra que o mês já registou 42,8 °C em 1995, e o recorde nacional, de 47,3 °C, foi fixado no Alentejo em 2003. Um recorde verifica-se; não se proclama.

A quebra: até treze graus numa semana

E depois vem a descida. A partir de quinta-feira, a curva desaba: em Évora, a máxima cai dos 40,6 °C do dia 5 para os 28 °C do dia 12 — quase treze graus de quebra em pouco mais de uma semana. Lisboa segue o mesmo compasso, dos 35 °C para os 24 °C, os tais onze graus que dão título à notícia. Os avisos laranja do IPMA, de resto, expiram precisamente ao fim da tarde de dia 9: é o momento em que o alívio, oficialmente, chega.

Mapa de anomalias térmicas de 2 a 14 de julho em Lisboa, Évora e Faro

A leitura das anomalias, dia a dia, conta a história inteira num relance: o vermelho intenso da primeira semana — mais de quinze graus acima da média — dá lugar, a partir do dia 10, a um azul cada vez mais fundo. Évora chega a ficar cinco graus abaixo do normal a 14 de julho. Do forno ao frescor em menos de uma semana.

Porque é que o calor cede

O motor de tudo isto tem nome: o anticiclone dos Açores. Durante a onda de calor, este vasto sistema de altas pressões instalou-se a oeste e a noroeste da Península Ibérica e funcionou como um muro atmosférico, bloqueando as massas de ar mais frescas do Atlântico e do norte da Europa. É o clássico «domo de calor»: o ar comprime-se, o céu limpa-se e o sol martela o solo dia após dia.

O alívio surge quando essa muralha se desloca. Assim que o núcleo anticiclónico migra para norte, em direção às Ilhas Britânicas, o bloqueio enfraquece e abre-se a porta ao ar marítimo. Enquanto o anticiclone se mantiver a oeste da Península, o domo resistirá; mal ele arrede para norte, o fluxo atlântico varre a onda de calor. É por isso que os meteorologistas seguem, mais do que o termómetro, a posição das altas pressões.

Um alívio a duas velocidades

Aqui entra a subtileza que o título da notícia sublinha: o fresco não chega a todo o lado ao mesmo tempo. A explicação está no acoplamento entre a nortada — o vento de norte-noroeste típico do verão português, filho do próprio anticiclone dos Açores — e o afloramento costeiro. Ao soprar paralela à costa, a nortada empurra as águas superficiais para o largo e faz subir água profunda e fria: é o upwelling, que arrefece o litoral e o ar que sobre ele assenta. Como a nortada é mais forte a norte do Tejo, o efeito é maior no litoral noroeste do que no sul.

O resultado vê-se nos dados. Enquanto o interior alentejano fervia a 40 °C, o Porto e Viana do Castelo não passavam dos 22-24 °C — já em pleno regime atlântico. Quando o ar fresco atravessar o interior, será Beja e Évora a descerem uns dez graus de uma assentada, ao passo que a faixa litoral, essa, mal dará pela mudança: nunca chegou a aquecer.

Mapa esquemático da báscula do calor entre a Ibéria e a França

Quem sofre a seguir é a França

Uma onda de calor não se dissolve no ar: desloca-se. À medida que Portugal «desliga o forno», a massa de ar quente escorrega para leste, primeiro sobre Espanha, depois sobre França. Os modelos são eloquentes: enquanto Beja arrefece de 38 para 28 °C, Paris sobe de 34 para 38 °C, Lyon de 37 para quase 41 °C e Bordéus para os 40 °C — em plena segunda semana de julho. O domo apenas mudou de morada.

Para Portugal, a trégua é real, mas convém não a confundir com o fim do verão. Se o bloqueio anticiclónico se restabelecer sobre a Península — e, num clima cada vez mais quente, restabelecer-se-á mais cedo ou mais tarde —, o forno reacende. Por agora, porém, o país pode respirar: o Atlântico, esse velho ar condicionado, voltou ao trabalho.

Nota metodológica

As séries de temperatura — máximas e mínimas diárias — provêm da Open-Meteo: modelo de previsão operacional para julho de 2026 e reanálise ERA5 para a climatologia, no ponto de grelha de cada cidade (Lisboa 38,72°N 9,14°O; Évora 38,57°N 7,91°O; Faro 37,02°N 7,93°O). A normal 1991-2020 e a envolvente mín.–máx. histórica foram calculadas dia de julho a dia de julho ao longo desses trinta anos de ERA5. Valores oficiais de estação e avisos: IPMA (api.ipma.pt). Reservas: as máximas oficiais do IPMA (estação) são, no interior e no sul, 2 a 4 °C mais altas do que os valores no ponto de grelha ERA5 (mais suavizados); a anomalia e a curva-envolvente assentam, por isso, numa base homogénea de ponto de grelha (previsão vs ERA5), para permanecerem comparáveis, ao passo que os picos citados em graus «redondos» (41 °C em Évora) remetem para as estações do IPMA. A costura entre o modelo de previsão e a reanálise ERA5 introduz um ligeiro desfasamento possível nos últimos dias. Fontes: Open-Meteo (open-meteo.com, archive-api.open-meteo.com), IPMA (api.ipma.pt) e, para os mecanismos, as explicações publicadas pelo tempo.pt sobre o domo de calor, a nortada e o upwelling.